A depressão nem sempre aparece como uma tristeza evidente. Por vezes, começa de forma mais silenciosa. Deixas de ter vontade de fazer coisas que antes gostavas, começas a afastar-te das pessoas, sentes-te constantemente cansado, tens dificuldade em concentrar-te ou simplesmente sentes que estás a funcionar em “piloto automático”.
E talvez o mais difícil seja explicar aos outros o que se passa, porque aparentemente “está tudo bem”.
A depressão não é apenas estar triste. É uma alteração significativa do humor, do interesse, da energia e da forma como a pessoa se relaciona consigo própria e com a vida. E quanto mais tempo estes sinais persistem, maior pode ser o impacto no trabalho, nos relacionamentos, no sono, na saúde e na capacidade de sentir prazer.
Quais são os sinais de alerta?
Um dos sinais mais importantes é a perda de interesse ou prazer. Coisas que antes faziam sentido deixam de despertar entusiasmo. Não significa necessariamente que a pessoa passe o dia a chorar, pode simplesmente sentir que nada lhe diz verdadeiramente alguma coisa. A isto pode juntar-se uma tristeza persistente, sensação de vazio, irritabilidade ou uma dificuldade crescente em sentir esperança relativamente ao futuro.
Também são frequentes alterações no sono, dormir demasiado ou ter dificuldade em dormir, alterações no apetite, fadiga, falta de energia e dificuldade em concentrar-se ou tomar decisões. Algumas pessoas começam ainda a sentir-se excessivamente culpadas, inúteis ou sem valor, mesmo quando não existe uma razão objectiva para essa avaliação tão negativa de si próprias.
É importante observar também mudanças no funcionamento habitual. Uma pessoa que normalmente trabalha bem começa a ter dificuldade em cumprir tarefas simples. Alguém socialmente activo começa a cancelar planos e a evitar pessoas. Uma pessoa que cuidava de si deixa de ter energia para tomar banho, cozinhar, fazer exercício ou manter rotinas básicas.
Estes comportamentos não significam automaticamente que exista uma depressão, mas quando representam uma mudança clara relativamente ao funcionamento anterior e persistem ao longo do tempo, merecem atenção.
Na perspectiva clínica do DSM-5-TR, um episódio depressivo envolve um conjunto de sintomas que provocam sofrimento clinicamente significativo ou prejuízo no funcionamento, não sendo suficiente identificar apenas um ou dois sinais isolados.
Nem toda a depressão tem o mesmo aspecto
Um dos erros mais comuns é imaginar que uma pessoa deprimida tem necessariamente um aspecto triste, fala pouco ou está constantemente a chorar. Nem sempre é assim. Algumas pessoas continuam a trabalhar, a sair com amigos, a cuidar dos filhos e até a fazer piadas enquanto, internamente, se sentem profundamente desligadas, exaustas ou sem esperança.
Outras tornam-se mais irritáveis, impacientes ou emocionalmente distantes. Há ainda quem procure ocupar constantemente a agenda para não entrar em contacto com aquilo que está a sentir.
Por isso, olhar apenas para o comportamento exterior pode ser enganador. A pergunta importante não é apenas “parece deprimido?”, mas “o que mudou nesta pessoa e há quanto tempo?”
Quando é altura de procurar ajuda?
Não é necessário esperar que a situação fique insuportável. Se sentes que há várias semanas não estás a ser tu próprio, se perdeste o interesse pelas coisas, se estás constantemente sem energia, se o teu sono ou apetite se alteraram, se tens dificuldade em trabalhar ou relacionar-te com os outros, ou se a tua forma de pensar sobre ti próprio se tornou persistentemente negativa, pode fazer sentido procurar acompanhamento psicológico.
Não precisas de ter a certeza de que tens uma depressão para marcar uma consulta. A função de uma avaliação psicológica é precisamente ajudar a perceber o que está a acontecer.
Também é importante não assumir imediatamente que todos estes sintomas significam depressão. Stress prolongado, ansiedade, burnout, luto, dificuldades relacionais, determinadas condições médicas ou alterações provocadas por medicamentos podem produzir sintomas semelhantes.
Uma avaliação adequada permite compreender melhor o quadro e decidir qual a intervenção mais indicada. E, em alguns casos, poderá ser importante articular o acompanhamento psicológico com avaliação médica ou psiquiátrica.
E quando existe risco de suicídio?
Aqui não devemos relativizar. Pensamentos como “preferia não estar aqui”, “a minha vida não vale a pena”, “seria melhor desaparecer” ou pensamentos concretos sobre morrer ou magoar-se devem ser levados a sério.
Não são uma “chamada de atenção” que devemos ignorar nem algo que a pessoa tenha simplesmente de ultrapassar sozinha.
Quando existe risco imediato, intenção de suicídio ou incapacidade para garantir a própria segurança, é necessária ajuda urgente, através dos serviços de emergência ou de uma estrutura de saúde adequada.
Nestes momentos, a prioridade não é descobrir exactamente por que razão a pessoa se sente assim, é garantir que não fica sozinha com esse risco.
Procurar ajuda não significa estar no limite?
Existe ainda uma ideia que pode atrasar muitas pessoas, a de que só devemos procurar um psicólogo quando já não conseguimos funcionar. Não é verdade. Quanto mais cedo conseguimos compreender determinados padrões, emoções e mudanças de comportamento, maior pode ser a possibilidade de intervir antes de a situação se tornar mais profunda ou incapacitante.
Pedir ajuda não significa que és fraco, que falhaste ou que “não consegues lidar com a vida”. Significa reconhecer que alguma coisa mudou e que merece ser compreendida.
A depressão pode fazer a pessoa acreditar que não há saída, que nada vai mudar ou que pedir ajuda não vale a pena. É precisamente por isso que não devemos esperar que seja a própria pessoa, no momento em que está mais fragilizada, a encontrar sozinha a força necessária para procurar apoio. Por vezes, o primeiro passo não é ter esperança. É simplesmente permitir que alguém te ajude a encontrá-la.
Não tens de carregar tudo sozinho. Permite-te pedir ajuda, deixa que alguém esteja ao teu lado e dá espaço para que te possam acompanhar. Marca uma sessão e dá o primeiro passo para começares a cuidar de ti, com o apoio de quem está preparado para te ouvir e ajudar.