Ter um bebé pode ser uma das experiências mais significativas da vida e, ao mesmo tempo, uma das mais exigentes. Há privação de sono, alterações hormonais, recuperação física, novas responsabilidades, mudanças na relação de casal e uma enorme adaptação à ideia de ser mãe ou pai.
Por isso, é perfeitamente possível sentir cansaço, chorar com facilidade, ficar mais irritável ou sentir-se emocionalmente vulnerável depois do nascimento. O problema é que, por vezes, a ideia de que “é normal porque tive um bebé” faz com que uma pessoa ignore sinais de que precisa de ajuda.
A depressão pós-parto não significa que alguém seja uma má mãe ou um mau pai, nem que não ame o seu bebé. É uma condição de saúde mental que pode surgir depois do nascimento e que pode ser tratada. Pode começar pouco depois do parto ou desenvolver-se mais tarde, ao longo do primeiro ano.
Baby blues ou depressão pós-parto?
Nos primeiros dias depois do parto é muito comum existir maior sensibilidade emocional, choro fácil, ansiedade ou irritabilidade. É aquilo que habitualmente se designa por “baby blues” e, em regra, tende a desaparecer no espaço de duas semanas. Quando estes sentimentos persistem, se intensificam, começam mais tarde ou interferem significativamente com a capacidade de cuidar de si própria, relacionar-se ou funcionar no dia-a-dia, é importante procurar ajuda.
A diferença não está simplesmente em “estar triste”. Uma mãe pode estar exausta e emocionalmente sensível sem estar deprimida. O que merece atenção é um padrão mais persistente de sofrimento. Sentir tristeza ou vazio durante grande parte do dia, perder o interesse ou prazer por coisas que anteriormente proporcionavam satisfação, sentir-se constantemente sobrecarregada ou sem esperança, ter sentimentos intensos de culpa ou inutilidade, estar muito irritável ou ansiosa, ter dificuldade em concentrar-se ou tomar decisões e sentir que não consegue lidar com a vida quotidiana são alguns dos sinais que justificam uma avaliação.
“Estou cansada porque tenho um bebé” mas e se não for só isso?
Esta é uma das maiores dificuldades em reconhecer a depressão pós-parto. O sono está inevitavelmente alterado quando temos um bebé, mas existe uma diferença entre estar cansada porque dormimos pouco e sentir que a nossa mente e o nosso corpo não conseguem recuperar mesmo quando temos oportunidade de descansar.
Dificuldades persistentes em dormir, inclusive quando o bebé está a dormir, alterações importantes do apetite, falta de energia, dificuldade de concentração e sensação constante de incapacidade podem ser sinais relevantes. Nenhum destes sintomas, isoladamente, permite diagnosticar depressão, sobretudo porque alguns são comuns no pós-parto, mas o seu conjunto, duração e impacto merecem atenção.
Também pode existir uma experiência particularmente dolorosa, que é sentir dificuldade em criar ligação emocional com o bebé. Algumas mães sentem culpa porque não experimentam imediatamente o vínculo intenso que imaginaram. Outras sentem que estão apenas a cumprir tarefas como alimentar, mudar, dar banho, adormecer.
É importante falar sobre isto sem julgamento. Ter dificuldades de vinculação pode acontecer no contexto de depressão pós-parto e não significa ausência de amor pelo bebé. Muitas vezes, quando o sofrimento psicológico é tratado, a relação com o bebé também se torna emocionalmente mais disponível.
E a ansiedade?
A depressão pós-parto nem sempre aparece como tristeza evidente. Para algumas pessoas, a experiência dominante é a ansiedade. Preocupação constante com o bebé, sensação de que alguma coisa terrível vai acontecer, dificuldade em desligar, irritabilidade, tensão, necessidade permanente de verificar se está tudo bem ou sensação de estar sempre em alerta podem acompanhar o período pós-parto. Depressão e ansiedade podem também coexistir, pelo que não devemos assumir que, se existe muita ansiedade, então “não pode ser depressão”.
Há ainda uma diferença importante entre preocupação parental normal e ansiedade incapacitante. É normal preocuparmo-nos com um bebé. O problema surge quando a preocupação ocupa grande parte do espaço mental, impede o descanso, leva a evitar situações ou interfere significativamente com o funcionamento.
O objectivo não é eliminar todas as preocupações de uma mãe ou de um pai, é perceber quando a preocupação deixou de ser apenas uma resposta adaptativa e passou a controlar a vida.
“Sinto que sou uma péssima mãe”
A culpa pode ser particularmente intensa na depressão pós-parto. Algumas mulheres olham para outras mães e concluem que toda a gente está a conseguir lidar com a situação excepto elas. Podem pensar: “Eu devia estar feliz”, “não devia sentir isto”, “há pessoas que dariam tudo para ter um bebé”, “o meu filho merece uma mãe melhor”.
Mas estas frases não são provas de incompetência. São frequentemente parte do próprio sofrimento psicológico. A depressão pode alterar a forma como interpretamos a realidade e como avaliamos o nosso próprio valor. Em vez de percebermos “estou a passar por uma fase difícil”, começamos a concluir “eu sou incapaz”. E quanto mais acreditamos nisso, mais vergonha sentimos e mais difícil se torna pedir ajuda.
Quando devo procurar ajuda?
Não precisas de esperar até teres todos os sintomas ou até sentires que já não consegues funcionar. Se sentes que alguma coisa mudou em ti desde a gravidez ou o nascimento do bebé e que esse sofrimento está a persistir, é suficiente para falares com um profissional. Uma avaliação pode ajudar a perceber se estamos perante depressão pós-parto, ansiedade, dificuldades de adaptação, privação de sono, outra condição psicológica ou uma combinação de vários factores.
A avaliação clínica deve olhar para a história da pessoa, os sintomas, a sua duração, intensidade e impacto. A depressão no período perinatal pode ser tratada através de diferentes abordagens, incluindo terapia e, quando indicado, medicação acompanhada por um médico.
E se tiver pensamentos assustadores?
Este ponto merece particular atenção. Algumas pessoas no pós-parto podem ter pensamentos intrusivos ou assustadores relacionados com o bebé. Ter um pensamento indesejado não significa automaticamente querer concretizá-lo, mas pensamentos de suicídio, de auto-agressão ou de causar dano ao bebé devem ser levados muito a sério e avaliados rapidamente.
Se existe risco imediato de te magoares ou de magoares o bebé, não fiques sozinha e procura ajuda urgente através dos serviços de emergência ou de um serviço de saúde. Situações de emergência psicológica no pós-parto requerem intervenção imediata.
E existe ainda uma situação particularmente importante que é a psicose pós-parto. Confusão intensa, perda de contacto com a realidade, alucinações, ideias delirantes ou alterações muito acentuadas do comportamento constituem uma emergência médica e não devem ser confundidas com a depressão pós-parto habitual.
Pedir ajuda não significa que falhaste
Talvez esta seja a mensagem mais importante: não precisas de provar que consegues fazer tudo sozinha. A maternidade não é um teste à resistência psicológica. Precisar de ajuda não significa amar menos o teu bebé, assim como procurar tratamento não significa que és uma má mãe.
Na verdade, cuidar da tua saúde mental também é uma forma de cuidar da tua família. Quando o sofrimento é reconhecido, deixa de ser necessário gastar tanta energia a escondê-lo. E quando existe apoio adequado, torna-se possível recuperar, voltar a sentir prazer, reconstruir confiança e desenvolver uma relação mais tranquila contigo própria e com o teu bebé. A depressão pós-parto é tratável e procurar ajuda mais cedo pode facilitar esse processo.
A chegada de um bebé traz muitas mudanças e nem sempre é fácil falar sobre aquilo que estamos a sentir. Se te sentes triste, esgotada, ansiosa ou diferente de ti própria, não precisas de enfrentar tudo isto sozinha.
A psicologia pode oferecer-te um espaço seguro para falares, compreenderes o que estás a viver e encontrares formas de te sentires melhor. Marca uma sessão e dá o primeiro passo para cuidares de ti.