Durante muito tempo, a ideia de fazer terapia esteve associada a uma imagem de entrar num consultório, sentar-se diante do psicólogo e falar. Hoje, essa realidade mudou. A terapia pode acontecer através de uma videochamada, a partir de casa ou de outro espaço privado, sem que isso signifique necessariamente uma experiência menos profunda ou menos profissional.
A psicologia online é uma modalidade de acompanhamento psicológico que utiliza ferramentas de comunicação à distância para criar um espaço terapêutico entre o psicólogo e o paciente. E, para muitas pessoas, essa possibilidade tornou o acesso à Psicologia mais simples, flexível e compatível com a vida quotidiana.
Como funciona a psicologia online?
Na prática, o funcionamento é semelhante ao acompanhamento presencial. Existe uma primeira consulta, na qual o psicólogo procura compreender o motivo que levou a pessoa a procurar ajuda, o seu contexto, dificuldades actuais, história relevante e objectivos para o acompanhamento. A partir daí, o processo é estruturado de acordo com as necessidades da pessoa e a abordagem psicológica utilizada pelo profissional.
As sessões acontecem normalmente através de uma plataforma de videochamada, permitindo que psicólogo e paciente se vejam e comuniquem em tempo real. É importante existir um espaço com privacidade, boa ligação à internet e condições que permitam falar sem interrupções. A qualidade do espaço terapêutico não depende apenas do consultório onde estamos. Depende também da relação, da segurança, da confidencialidade e da qualidade da intervenção.
É tão eficaz como presencial?
Esta é provavelmente uma das perguntas mais frequentes e uma das mais importantes. A investigação sobre terapia por videoconferência tem encontrado resultados favoráveis para várias dificuldades psicológicas, incluindo ansiedade e depressão, embora a adequação da modalidade possa depender da pessoa, do problema e do contexto clínico.
A questão, portanto, não deve ser simplesmente “online ou presencial?”. Deve ser: “Qual é a modalidade mais adequada para esta pessoa e para aquilo que estamos a trabalhar?”
Para algumas pessoas, estar presencialmente no consultório é importante. Para outras, a possibilidade de fazer terapia a partir de casa facilita a continuidade e reduz barreiras que poderiam fazê-las desistir ou adiar a procura de ajuda.
Uma das grandes vantagens é a acessibilidade
Imagina alguém que vive numa zona onde existem poucos psicólogos especializados numa determinada área. Ou alguém que trabalha até tarde e teria dificuldade em deslocar-se a um consultório. Ou ainda uma pessoa que viaja frequentemente, muda de cidade ou passa períodos fora do país.
A psicologia online pode reduzir algumas destas barreiras.
A distância deixa de ser necessariamente um obstáculo. Em muitos casos, permite que a pessoa encontre um profissional adequado às suas necessidades sem que a localização seja o principal factor de decisão.
Também pode ser particularmente útil para pessoas com mobilidade reduzida, dificuldades de deslocação ou rotinas profissionais e familiares pouco previsíveis.
Menos tempo perdido, mais flexibilidade
Outra vantagem evidente é a gestão do tempo. Uma sessão presencial pode implicar deslocação, estacionamento, transportes e todo o tempo associado a chegar e regressar.
Na modalidade online, esse tempo pode ser significativamente reduzido.
Uma pessoa pode terminar uma reunião, fazer uma sessão no seu espaço privado e continuar posteriormente o seu dia. Um pai ou uma mãe pode conseguir integrar uma sessão numa rotina familiar que, de outra forma, tornaria o acompanhamento muito difícil.
Esta flexibilidade pode ser particularmente importante porque a continuidade do acompanhamento é uma parte relevante do processo terapêutico. De pouco serve encontrar um excelente profissional se a logística torna impossível manter as sessões de forma consistente.
O conforto de estar no próprio espaço
Para algumas pessoas, entrar num consultório pode gerar ansiedade adicional. Estar num espaço familiar pode facilitar a sensação inicial de segurança e tornar mais simples começar a falar sobre determinados assuntos.
Há também pessoas que se sentem mais confortáveis por não terem de atravessar uma sala de espera, encontrar conhecidos ou explicar a alguém onde vão.
Mas existe aqui uma nuance importante, estar em casa não significa automaticamente estar num ambiente adequado para a terapia.
Se há outras pessoas constantemente a entrar no quarto, crianças a interromper, colegas por perto ou falta de privacidade, a experiência pode tornar-se difícil. A psicologia online funciona melhor quando existe um espaço protegido, onde a pessoa sabe que pode falar livremente.
E a relação com o psicólogo?
Esta é talvez a preocupação mais profunda: “Será que consigo criar uma verdadeira relação terapêutica através de um ecrã?”
A resposta é que, para muitas pessoas, sim.
A relação terapêutica não é construída apenas através da presença física. É construída através da escuta, empatia, confiança, segurança, compreensão e trabalho conjunto. O ecrã introduz algumas diferenças, naturalmente, mas não elimina estes elementos.
Ao mesmo tempo, não devemos fingir que online e presencial são exactamente iguais. A comunicação não verbal pode ser diferente, existem limitações técnicas e algumas pessoas simplesmente sentem que conseguem trabalhar melhor presencialmente.
Não existe uma modalidade universalmente melhor. Existe uma modalidade que pode ser mais adequada para determinada pessoa, naquele momento.
A psicologia online não é simplesmente “falar por videochamada”
Outro ponto importante é não confundir psicologia online com uma conversa informal por videochamada.
Existe avaliação clínica, enquadramento profissional, definição de objectivos, intervenção psicológica e acompanhamento do processo. O psicólogo continua sujeito às mesmas responsabilidades éticas e profissionais aplicáveis ao exercício da Psicologia.
A tecnologia é apenas o meio através do qual acontece a intervenção.
E isto é importante porque a qualidade de uma terapia não depende da plataforma utilizada. Depende sobretudo da competência do profissional, da adequação da intervenção, da relação terapêutica e do trabalho desenvolvido ao longo do processo.
Existem situações em que o online pode não ser a melhor opção?
Sim, em determinadas situações clínicas, pode ser preferível uma avaliação presencial ou uma combinação de diferentes formas de acompanhamento. Situações de risco elevado, determinadas dificuldades que exigem avaliação directa ou circunstâncias em que não exista privacidade ou segurança podem justificar outro tipo de resposta.
Também pode simplesmente acontecer que uma pessoa tente fazer terapia online e perceba que não se sente confortável com essa modalidade. Isso é válido. A escolha da modalidade deve ter em conta as necessidades e preferências da pessoa, sem transformar o online numa obrigação.
Como tirar melhor partido da psicologia online?
Escolhe um espaço privado, utiliza auscultadores se isso aumentar a privacidade, verifica a ligação antes da sessão e tenta evitar interrupções. Também pode ser útil não marcar a sessão imediatamente antes de uma reunião stressante ou de uma actividade que exija atenção intensa. Dar alguns minutos ao cérebro para fazer a transição pode ajudar.
E existe outra coisa importante: trata a sessão online como tratarias uma sessão presencial.
Não precisas de estar formalmente vestido, nem de criar um consultório em casa. Mas ajuda encarar aquele tempo como um espaço realmente dedicado a ti e ao processo terapêutico, em vez de fazer a sessão enquanto respondes a emails, preparas o jantar ou verificas constantemente o telemóvel.
A qualidade da terapia também depende da disponibilidade psicológica com que entramos nela.
Afinal, vale a pena fazer psicologia online?
Para muitas pessoas, sim.
A modalidade online pode tornar a Psicologia mais acessível, flexível e integrada na vida quotidiana. Pode permitir manter acompanhamento durante viagens ou mudanças de cidade, reduzir barreiras logísticas e facilitar a procura de profissionais com experiência numa determinada área.
Mas talvez a maior vantagem seja a possibilidade de deixar de adiar ajuda por razões práticas.
“Não tenho tempo.”
“Não tenho nenhum psicólogo perto de mim.”
“É demasiado complicado deslocar-me.”
“Quando conseguir organizar a minha vida, procuro ajuda.”
Às vezes, a vida nunca fica suficientemente organizada. E esperar pelo momento perfeito pode significar esperar indefinidamente.
A psicologia online não elimina a vulnerabilidade de pedir ajuda. Mas pode tornar o primeiro passo mais simples. Porque, no final, a questão mais importante não é se a terapia acontece num consultório ou através de um ecrã.
É se existe um espaço seguro, um profissional competente e uma relação suficientemente boa para começar a compreender aquilo que está a acontecer e a construir mudanças a partir daí.
Seja em psicologia presencial ou online, o mais importante é encontrares uma forma de acompanhamento em que te sintas confortável, seguro e acompanhado.
Pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas uma forma de investires em ti, no teu bem-estar e na vida que queres construir. Não precisas de ter tudo resolvido para começar. Às vezes, o primeiro passo é simplesmente decidir que também mereces cuidar de ti.