O Topo é Solitário: o lado emocional de ser empresário

Por fora, tens as respostas. Por dentro, podes estar cheio de dúvidas. Descobre o lado emocional que muitas vezes fica escondido no empreendedorismo (…)

Existe uma imagem muito atractiva do topo: liberdade, dinheiro, reconhecimento, poder de decisão, autonomia. O empresário que chegou lá é apresentado como alguém que venceu. Mas existe uma parte da liderança que raramente aparece nas fotografias, nas entrevistas ou nas publicações de LinkedIn.

Quanto maior a responsabilidade, mais difícil pode ser encontrar alguém com quem possas baixar verdadeiramente a guarda.

Ser empresário pode ser uma experiência profundamente solitária. Não necessariamente porque faltam pessoas à volta, mas porque nem sempre podes partilhar com essas pessoas aquilo que realmente estás a viver.

Tens colaboradores que dependem das tuas decisões, sócios com quem precisas de negociar, clientes que esperam confiança, família que nem sempre compreende a dimensão da responsabilidade e, muitas vezes, outros empresários perante os quais também sentes necessidade de mostrar que está tudo sob controlo.

Podes estar rodeado de pessoas e, ainda assim, sentir que estás sozinho com as decisões mais difíceis.

Quanto maior a responsabilidade, menos pessoas podem decidir contigo

Quando estás no início de um projecto, é relativamente fácil partilhar dúvidas. “Será que isto vai resultar?” “Será que estamos a fazer bem?” Há outras pessoas a experimentar contigo e o risco parece distribuído.

À medida que o negócio cresce, a natureza das decisões muda. Já não estás apenas a decidir por ti. As tuas decisões podem afectar salários, famílias, investimentos, fornecedores, clientes e o futuro de várias pessoas. E isso altera a forma como te relacionas com a dúvida.

Podes continuar inseguro, mas sentes que não podes mostrar insegurança. Podes estar cansado, mas sentes que tens de transmitir energia. Podes não saber o que fazer, mas esperam que sejas precisamente tu a saber.

É aqui que pode surgir uma das grandes contradições da liderança: quanto mais pessoas dependem de ti, mais responsabilidade sentes em parecer alguém de quem os outros podem depender.

O empresário que precisa de parecer sempre forte

Existe uma ideia cultural de liderança que associa competência a certeza. O bom líder sabe. O bom empresário decide. O fundador não pode hesitar.

Mas esta imagem cria um problema psicológico: se acreditas que tens de parecer sempre confiante, começas a esconder precisamente as partes de ti que mais precisam de apoio.

Não significa que devas descarregar todas as tuas inseguranças sobre a equipa ou tomar decisões impulsivamente. Liderar implica responsabilidade. Mas existe uma diferença entre ter estabilidade emocional e fingir que nunca tens dúvidas.

Um empresário pode dizer “não tenho a certeza, preciso de pensar” sem deixar de ser líder. Pode pedir opinião sem abdicar da decisão final. Pode admitir um erro sem destruir a sua autoridade.

Aliás, muitas vezes, a confiança verdadeira começa precisamente aí, não precisar de representar constantemente uma versão invulnerável de si próprio.

A solidão não é apenas falta de companhia

É possível ter reuniões o dia inteiro, dezenas de colaboradores, clientes, parceiros, amigos e uma família e continuar a sentir solidão.

Porque solidão não significa apenas ausência de pessoas. Também pode significar ausência de uma relação onde possas ser completamente honesto sobre aquilo que estás a viver.

Quem compreende verdadeiramente o medo de perder uma empresa que demoraste dez anos a construir? Quem compreende o peso de despedir alguém? Quem compreende a ansiedade antes de uma decisão que pode custar centenas de milhares de euros? Quem compreende a sensação de ter de continuar a trabalhar quando estás emocionalmente esgotado porque sabes que existem pessoas que dependem de ti?

Por vezes, o empresário não precisa de mais pessoas à sua volta. Precisa de relações onde não tenha de desempenhar o papel de empresário.

E existe outro problema: ninguém quer ouvir sempre “estou mal”

Muitos empresários tornam-se excelentes a esconder o próprio sofrimento.

Não porque sejam necessariamente mais fortes, mas porque aprenderam que a sua função exige resposta. Há sempre mais uma decisão, mais um problema, mais uma negociação, mais um cliente, mais uma contratação.

O problema é que aquilo que não é processado emocionalmente não desaparece. Pode transformar-se em irritabilidade, ansiedade, dificuldade em dormir, consumo excessivo de álcool ou outras estratégias de compensação, afastamento da família, perda de prazer ou uma sensação persistente de estar em piloto automático.

O corpo pode continuar a funcionar muito depois de a pessoa já estar emocionalmente saturada.

E é precisamente por isso que esperar pelo colapso para procurar ajuda pode ser uma estratégia particularmente cara.

O negócio pode tornar-se a identidade

Outro risco aparece quando o sucesso empresarial deixa de ser apenas uma parte da vida e passa a ser a principal medida de valor pessoal.

“Se a empresa está bem, eu estou bem.”
“Se crescemos, estou a fazer um bom trabalho.”
“Se falhamos, falhei.”

Quando isto acontece, uma dificuldade no negócio deixa de ser apenas um problema profissional. Torna-se uma ameaça à identidade.

Já não estás apenas a perder dinheiro. Sentes que estás a perder valor.

É aqui que o fracasso se torna psicologicamente muito mais pesado. Um erro estratégico pode transformar-se em vergonha. Uma crítica pode ser sentida como rejeição. Um trimestre mau pode colocar em causa toda a narrativa que construíste sobre quem és.

Ter ambição não é o problema. O problema é quando o teu valor pessoal fica completamente dependente dos resultados da empresa.

O preço de nunca desligar

Existe também uma romantização perigosa da disponibilidade permanente.

Responder a mensagens às onze da noite. Pensar no negócio durante o jantar. Acordar a meio da noite para verificar números. Trabalhar ao fim-de-semana. Estar fisicamente presente com a família mas mentalmente numa reunião.

Durante algum tempo, isto pode parecer dedicação. A longo prazo, pode transformar-se numa incapacidade de estar verdadeiramente presente em qualquer lugar.

Se nunca desligas, o problema deixa de ser apenas quanto trabalhas. Passa a ser que a tua mente nunca encontra um lugar onde não precise de resolver problemas.

E um cérebro permanentemente orientado para a resolução de problemas tem dificuldade em descansar, brincar, criar intimidade e simplesmente estar.

Não precisas de encontrar alguém que tenha todas as respostas

Talvez uma das soluções para a solidão empresarial não seja encontrar alguém que compreenda tudo, mas construir diferentes espaços para diferentes necessidades.

Um coach ou mentor pode ajudar-te a pensar estrategicamente. Um sócio pode discutir decisões. Outros empresários podem compreender determinados desafios. A família pode oferecer proximidade emocional. Amigos podem lembrar-te de quem és para além da empresa. E um psicólogo ou coach pode proporcionar um espaço onde não precisas de proteger a tua imagem, liderar ninguém ou encontrar imediatamente uma solução.

Não é fraqueza precisar de diferentes pessoas para diferentes dimensões da tua vida. É maturidade.

Na verdade, uma das características de uma liderança sustentável pode ser precisamente esta capacidade de reconhecer: “Há coisas que não tenho de resolver sozinho.”

O verdadeiro topo não devia ser um lugar onde ninguém pode chegar até ti

Talvez o problema não seja que o topo é inevitavelmente solitário. Talvez o problema seja a ideia de que, para chegar ao topo, tens de deixar de permitir que alguém se aproxime.

Podes ser ambicioso e vulnerável. Podes ser exigente e pedir ajuda. Podes tomar decisões difíceis e admitir que algumas te assustam. Podes liderar centenas de pessoas e continuar a precisar de alguém com quem possas dizer simplesmente: “Hoje não estou bem.”

Porque o verdadeiro sucesso não é construir uma empresa que depende de ti para tudo.

E também não é chegar a um ponto onde tens tudo, mas não tens ninguém com quem possas ser tu próprio.

O verdadeiro desafio talvez seja construir uma vida em que o sucesso profissional não tenha como preço a tua saúde mental, os teus relacionamentos ou a tua capacidade de desfrutar aquilo que construíste.

Porque de pouco serve chegar ao topo se, quando finalmente lá chegas, descobres que não tens ninguém com quem possas partilhar a vista.

Construir um negócio é também uma jornada de crescimento pessoal. À medida que surgem novos desafios, decisões e responsabilidades, precisas de espaço para evoluir, ganhar clareza e cuidar de ti. Marca uma sessão de coaching e investe no teu crescimento, para que possas continuar a crescer sem te perder pelo caminho.

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