As birras fazem parte do desenvolvimento infantil. Mas saber isto não significa que sejam fáceis de aguentar.
Uma criança a gritar, a chorar, a atirar-se para o chão ou a dizer “não!” repetidamente pode activar nos pais uma resposta emocional muito intensa. E, muitas vezes, aquilo que começa como uma dificuldade da criança em lidar com a frustração acaba por se transformar numa dificuldade do adulto em lidar com a própria frustração.
A criança perde o controlo e o adulto perde a calma. É aqui que começa um dos maiores desafios da parentalidade: como ajudar uma criança a regular as suas emoções sem sermos nós próprios arrastados por elas?
A birra não é necessariamente manipulação
Uma das ideias mais importantes é que uma criança em plena birra nem sempre está a tentar desafiar-te, manipular-te ou “fazer-te a vontade”. Dependendo da idade e do desenvolvimento, pode simplesmente não ter ainda capacidade para lidar com aquilo que está a sentir.
A frustração pode ser enorme quando se ouve um “não”, quando é preciso sair do parque, quando um brinquedo não funciona como queria ou quando uma actividade termina. Para um adulto, o acontecimento pode parecer pequeno. Para uma criança, naquele momento, pode ser emocionalmente gigantesco.
Isto não significa que devamos permitir tudo. Pelo contrário. Compreender a emoção não significa retirar o limite. Uma criança pode estar zangada e, ainda assim, não poder bater. Pode estar frustrada e, ainda assim, ter de desligar o tablet. Pode chorar porque não pode comer mais chocolate e, ainda assim, a resposta continuar a ser não.
A função do adulto não é impedir que a criança sinta emoções desagradáveis. É ajudá-la a aprender que pode senti-las sem ser comandada por elas.
Primeiro regula-te a ti
Quando uma criança grita, é muito fácil responder com mais intensidade: “PÁRA DE GRITAR!”, “JÁ CHEGA!”, “SE CONTINUARES ASSIM, FICAS DE CASTIGO!”. O problema é que, nesse momento, estamos frequentemente a tentar regular uma criança enquanto o nosso próprio sistema emocional está activado.
Antes de tentar acalmar a criança, pode ser necessário baixar a própria activação. Respirar mais devagar. Falar mais baixo. Fazer uma pausa de alguns segundos. Recordar que aquela situação não é uma emergência.
Nem tudo precisa de ser resolvido naquele instante. A calma do adulto não é apenas uma questão de paciência, é uma forma de co-regulação. Uma criança pequena aprende progressivamente a regular as emoções também através da relação com um adulto que consegue permanecer relativamente estável quando ela própria está desorganizada.
Isto não significa que tenhas de ser um pai ou uma mãe perfeitamente calmo. Vais perder a paciência algumas vezes. Vais levantar a voz. Vais arrepender-te de algumas respostas. A questão não é nunca falhar. É conseguir reparar.
Depois de gritarmos, podemos dizer: “Eu estava muito zangado e gritei. Não foi a melhor forma de falar contigo. O que fizeste não estava certo, mas eu também preciso de aprender a lidar com a minha zanga.” Reparar não enfraquece a autoridade. Pelo contrário, ensina responsabilidade emocional.
Valida a emoção sem ceder ao comportamento
Durante uma birra, muitas crianças não precisam imediatamente de uma explicação longa. Precisam primeiro de sentir que o adulto percebeu aquilo que está a acontecer.
“Eu sei que querias continuar a brincar.”
“Estás mesmo zangado porque temos de ir embora.”
“É difícil ouvir que não.”
Estas frases não significam “tens razão em fazer tudo o que estás a fazer”. Significam apenas: “Eu consigo perceber o que estás a sentir.”
Depois vem o limite: “Podes estar zangado. Não podes bater.” Ou: “Podes chorar. O tablet continua desligado.” Esta combinação validar a emoção e manter o limite é fundamental.
O erro está muitas vezes em escolher apenas um dos lados: ou reprimimos a emoção (“não tens razão nenhuma para estar assim”) ou eliminamos todos os limites para evitar o conflito. Nenhuma das opções ensina verdadeiramente a criança a lidar com a frustração.
Não tentes ganhar uma discussão com uma criança desregulada
Uma criança em plena explosão emocional dificilmente está no melhor estado para ouvir uma explicação racional de cinco minutos sobre porque é que o seu comportamento não faz sentido. Quanto maior a activação emocional, menor tende a ser a capacidade para processar informação complexa.
Por isso, durante a birra, menos pode ser mais. Poucas palavras. Voz tranquila. Limites claros. Presença. Segurança.
Depois, quando a criança estiver novamente regulada, aí sim pode existir espaço para conversar: “O que aconteceu?”, “O que sentiste?”, “O que poderias fazer da próxima vez?”. É nesse momento que ensinamos.
Durante a explosão, muitas vezes estamos sobretudo a ajudar a atravessá-la.
Prevenir também é educar
Nem todas as birras podem ser evitadas, mas algumas situações tornam a desregulação muito mais provável. Fome, sono, excesso de estímulos, mudanças inesperadas, transições rápidas entre actividades ou limites inconsistentes podem aumentar a probabilidade de uma criança reagir intensamente.
Isto não significa que devamos construir uma vida em que a criança nunca se frustra. A frustração é necessária para o desenvolvimento. Significa apenas que podemos criar condições que tornam essa aprendizagem mais tolerável.
Avisar antes de terminar uma actividade “daqui a cinco minutos vamos embora”, manter algumas rotinas previsíveis e estabelecer regras simples pode ajudar bastante.
Também é importante observar os padrões. Se as birras acontecem sempre num determinado contexto, talvez a questão não seja apenas “como parar a birra?”, mas “o que está a acontecer antes dela?”.
A parentalidade torna-se muito mais eficaz quando deixamos de olhar apenas para o comportamento final e começamos a compreender aquilo que o antecede.
E quando a criança não pára?
Há momentos em que fazemos tudo “bem” e a criança continua a chorar. E isto pode ser particularmente difícil para os pais, porque existe a expectativa de que uma boa resposta deveria fazer a birra desaparecer. Nem sempre desaparece.
O objectivo não é fazer a criança parar de sentir. É ajudá-la a atravessar aquilo que está a sentir.
Podes permanecer perto. Podes garantir que está segura. Podes repetir calmamente o limite. Podes oferecer contacto físico se ela o aceitar. E podes esperar. Uma emoção intensa tem um ciclo. Não precisas de resolver imediatamente aquilo que, naquele momento, talvez precise apenas de tempo para diminuir.
E existe aqui uma distinção importante: acalmar não é o mesmo que distrair, subornar ou ceder. Se cada birra termina sempre com a retirada do limite, a criança pode aprender, não necessariamente de forma consciente, que a escalada emocional altera o resultado.
Manter um limite com empatia transmite uma mensagem diferente: “Eu continuo aqui contigo, mesmo quando estás zangado. E algumas regras continuam a existir mesmo quando não gostas delas.”
O verdadeiro desafio é ensinar aquilo que queremos que aconteça
É fácil concentrarmo-nos no comportamento que queremos eliminar: não gritar, não bater, não atirar coisas, não fazer birras. Mas uma criança não aprende apenas através daquilo que lhe dizemos para não fazer. Precisa de aprender o que pode fazer em alternativa.
“Quando estás zangado, podes dizer que estás zangado.”
“Podes pedir ajuda.”
“Podes afastar-te.”
“Podes respirar comigo.”
“Podes dizer: ‘não gosto disto’.”
Estas competências não aparecem magicamente quando são necessárias. São treinadas quando a criança está calma, através de repetição, modelagem e relação. Uma criança aprende a regular emoções, em grande parte, sendo regulada e observando adultos que também regulam as suas.
Não precisas de ser um pai perfeito
Talvez esta seja a parte mais importante. Muitos pais sentem culpa porque perderam a paciência. Outros sentem que estão constantemente a negociar, a explicar, a repetir e a tentar encontrar a resposta certa. Mas a parentalidade não é um teste em que existe uma resposta perfeita para cada birra.
Haverá dias em que conseguirás manter a calma. Haverá outros em que estarás cansado e reagirás pior. O objectivo não é construir uma relação sem conflitos. É construir uma relação em que existe segurança suficiente para que os conflitos possam ser reparados.
Uma criança não precisa de um adulto que nunca se irrita. Precisa de um adulto que lhe mostre, progressivamente, que a zanga pode ser sentida sem que a relação se parta, que os limites podem existir sem humilhação, que o “não” não significa abandono e que, depois de uma tempestade emocional, é possível voltar a encontrar tranquilidade.
Porque lidar com birras não é simplesmente aprender a fazer uma criança parar de chorar. É ensiná-la, pouco a pouco, que pode sentir emoções enormes sem precisar de ser controlada por elas.
E isso começa muitas vezes por aquilo que a criança vê quando olha para nós no momento em que ela própria perdeu o controlo.
O mais importante é aprender, pouco a pouco, a compreender o que está por trás destes comportamentos, estabelecer limites com segurança e manter a ligação mesmo nos momentos mais difíceis.
Se sentes que as birras estão a ser difíceis de gerir ou que precisas de mais ferramentas para acompanhar o teu filho, agenda uma sessão de acompanhamento parental e encontra estratégias que façam sentido para a vossa família.