Ansiedade na Adolescência

“Está tudo bem” nem sempre significa que está. Na adolescência, a ansiedade pode esconder-se por detrás de mudanças que nem sempre são fáceis de compreender (…)

A adolescência é uma fase de mudanças profundas. O corpo transforma-se, as relações ganham uma importância diferente, aumenta a preocupação com a imagem e com a opinião dos outros e surgem novas exigências académicas, sociais e familiares. É natural que, neste período, exista alguma ansiedade.

O problema começa quando a ansiedade deixa de ser apenas uma resposta a desafios concretos e passa a condicionar a forma como o adolescente vive, pensa, se relaciona e toma decisões.

Um adolescente ansioso nem sempre parece assustado. Por vezes, parece irritado, desinteressado, cansado ou simplesmente “difícil”. E é precisamente por isso que os sinais podem passar despercebidos.

O que é a ansiedade na adolescência?

A ansiedade é uma resposta normal do organismo perante situações percepcionadas como ameaçadoras ou exigentes. Pode ajudar um adolescente a preparar-se para um teste, pensar antes de tomar uma decisão ou adaptar-se a uma situação nova.

O problema não está em sentir ansiedade, está naquilo que acontece quando essa ansiedade se torna demasiado intensa, frequente ou persistente. Um adolescente pode começar a preocupar-se excessivamente com a escola, com o futuro, com a sua aparência, com as amizades, com a possibilidade de ser rejeitado ou com aquilo que os outros pensam dele. E, muitas vezes, a preocupação não desaparece mesmo quando não existe uma ameaça concreta.

Na perspectiva do DSM-5-TR, existem diferentes perturbações de ansiedade, e a adolescência pode ser uma fase em que algumas delas se tornam mais evidentes. Ansiedade de separação, ansiedade social, perturbação de ansiedade generalizada e perturbação de pânico são exemplos de condições distintas. Isto é importante porque dizer que um adolescente “tem ansiedade” não é, por si só, um diagnóstico.

Sentir ansiedade é humano, ter uma perturbação de ansiedade implica um padrão de sintomas que provoca sofrimento significativo ou interfere de forma relevante no funcionamento.

Como pode manifestar-se?

Nem todos os adolescentes expressam a ansiedade através de palavras. Alguns dizem “estou preocupado”, mas outros dizem “não quero ir”, “não me apetece”, “estou cansado” ou “não sei”. Podem surgir dificuldades em adormecer, dores de cabeça ou de barriga, tensão muscular, alterações do apetite, dificuldade de concentração, irritabilidade ou sensação constante de cansaço.

Também pode existir necessidade excessiva de confirmação: “Tens a certeza?”, “E se acontecer alguma coisa?”, “E se eu falhar?”, “E se eles não gostarem de mim?”. A procura repetida de garantias pode aliviar a ansiedade durante alguns minutos, mas acaba muitas vezes por reforçar a necessidade de voltar a perguntar.

Outro sinal importante é a evitação. O adolescente começa a faltar a situações que lhe provocam ansiedade, deixa de participar nas aulas, evita apresentações, festas ou encontros com amigos, recusa determinadas actividades ou inventa razões para não enfrentar aquilo que o assusta.

À primeira vista, evitar parece resolver o problema. Se tenho medo de falar em público e não apresento o trabalho, sinto alívio. Mas esse alívio ensina ao cérebro uma coisa perigosa: “evitar funcionou”. E, da próxima vez, a ansiedade tende a aparecer ainda mais depressa.

Por isso, muitas vezes, o problema não é apenas aquilo que o adolescente teme, mas o ciclo entre ansiedade, evitamento e alívio imediato.

Quando devemos preocupar-nos?

Não é necessário esperar que exista uma crise para procurar ajuda. Alguns sinais merecem particular atenção: ansiedade que persiste durante semanas ou meses, preocupação difícil de controlar, recusa frequente da escola, isolamento social, queda significativa no rendimento, alterações marcadas do sono ou alimentação, crises de ansiedade, medo intenso de ser avaliado ou rejeitado, queixas físicas recorrentes sem explicação suficiente ou abandono de actividades que anteriormente eram importantes para o adolescente.

Uma pergunta especialmente útil para os pais não é apenas “o meu filho está ansioso?”, mas sim: “a ansiedade está a impedir o meu filho de viver a vida que seria expectável para a sua idade?” Se um adolescente deixa de fazer coisas que gostaria de fazer, começa a organizar a vida à volta dos seus medos ou o sofrimento interfere significativamente na escola, nas amizades ou na família, é importante levar esses sinais a sério.

O que podem fazer os pais?

A primeira resposta nem sempre deve ser tentar eliminar a ansiedade. Quando um filho diz “tenho medo”, é natural responder imediatamente: “Não tens de ter medo, vai correr tudo bem.” O problema é que, apesar de bem-intencionada, esta resposta pode transmitir que sentir medo é algo que precisa de ser eliminado imediatamente.

É mais útil começar por reconhecer a experiência: “Percebo que isto te está a deixar muito ansioso. Vamos perceber o que estás a imaginar que pode acontecer.” Validar a emoção não significa concordar com o medo nem garantir que nada de mau acontecerá.

Também é importante evitar dois extremos: minimizar e proteger em excesso. Dizer “isso é uma parvoíce” pode aumentar vergonha e isolamento, fazer constantemente tudo pelo adolescente para evitar que sinta ansiedade pode reforçar a ideia de que ele não é capaz de lidar com aquilo. O objectivo é ajudar progressivamente o adolescente a enfrentar aquilo que teme, com apoio e de forma adequada à situação. A mensagem é diferente: “Eu sei que isto é difícil para ti e não tens de fazer isto sozinho, mas também acredito que consegues aprender a lidar com isto.”

E há algo que os adultos frequentemente esquecem: os adolescentes observam muito mais do que aquilo que lhes dizemos. A forma como os pais lidam com os próprios erros, preocupações, conflitos e incertezas também transmite mensagens sobre o que significa enfrentar emoções difíceis.

Um adulto que consegue dizer “estou preocupado, mas consigo pensar no que posso fazer” está a ensinar uma competência psicológica muito mais poderosa do que simplesmente dizer “não te preocupes”.

Pedir ajuda não significa que exista um problema grave

Um acompanhamento psicológico não implica necessariamente que exista uma perturbação mental. Pode servir para compreender o que está a acontecer, identificar os factores que mantêm a ansiedade e ensinar estratégias para lidar com ela antes que comece a dominar diferentes áreas da vida. Dependendo da situação, o trabalho pode envolver directamente o adolescente, os pais, ou ambos.

E se a ansiedade estiver associada a sintomas intensos de depressão, desesperança, comportamentos de auto-agressão ou pensamentos de morte ou suicídio, a situação deve ser avaliada com urgência por profissionais de saúde. Nesses casos, não devemos esperar que “passe com a idade”.

A adolescência não precisa de ser uma fase sem ansiedade. Precisa de ser uma fase em que o jovem aprende que consegue sentir medo, incerteza e insegurança sem deixar que essas emoções decidam por ele. A ansiedade torna-se um problema quando começa a encolher a vida. O acompanhamento psicológico pode ajudar a devolver espaço, confiança e liberdade para que o adolescente volte a ocupá-la.

A psicologia pode oferecer um espaço seguro para o adolescente compreender melhor a sua ansiedade, desenvolver estratégias para lidar com ela e recuperar confiança no dia a dia. Se sentes que a ansiedade está a interferir com a tua vida, marca uma sessão e dá o primeiro passo.

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