Tenho tudo para estar feliz, mas não me sinto feliz

Por fora parece estar tudo bem, mas por dentro sentes que falta alguma coisa? (…)

“Eu tenho tudo para estar feliz. Tenho trabalho, tenho estabilidade, tenho uma relação, tenho saúde, tenho pessoas que gostam de mim… então porque é que não me sinto feliz?”

Esta é uma pergunta mais comum do que parece e pode ser particularmente dolorosa porque vem acompanhada de culpa. Quando, aparentemente, não nos falta nada, começamos a acreditar que também não temos direito a sentir-nos mal. Olhamos para a nossa vida e pensamos: “Não tenho motivos para me sentir assim.”

Mas as emoções não funcionam como uma folha de Excel. Ter motivos externos para estar bem não garante automaticamente uma experiência interna de bem-estar.

Ter uma vida boa não significa sentir felicidade constantemente

Uma das primeiras coisas a compreender é que felicidade não é uma recompensa por teres construído uma vida suficientemente boa.

Podemos alcançar objectivos que desejámos durante anos e descobrir que a sensação de realização dura menos do que esperávamos. Isto acontece, em parte, porque nos habituamos às mudanças positivas. Uma promoção, uma casa nova, mais dinheiro ou uma relação podem melhorar genuinamente a nossa vida, mas o cérebro adapta-se às novas circunstâncias.

Aquilo que inicialmente parecia extraordinário começa, com o tempo, a fazer parte do normal.

Por isso, viver constantemente à procura da próxima conquista como forma de finalmente “chegar” à felicidade pode criar um ciclo em que nunca sentimos que chegámos realmente.

Quando a vida funciona por fora, mas não por dentro

Também podemos ter construído uma vida que funciona muito bem por fora, mas que não corresponde totalmente àquilo que precisamos por dentro.

É possível ter uma carreira de sucesso e sentir que o trabalho não tem significado. Ter uma relação estável e sentir solidão. Ter amigos e não conseguir mostrar-lhes quem realmente somos. Ter dinheiro e viver permanentemente preocupado.

Cumprir aquilo que a família, a sociedade ou nós próprios esperávamos e, ainda assim, sentir uma espécie de vazio.

Às vezes, o problema não é não termos construído uma boa vida. É termos construído uma vida que não sentimos verdadeiramente como nossa.

Prazer, satisfação e sentido não são a mesma coisa

Existe ainda uma diferença importante entre prazer, satisfação e sentido.

Podemos ter muitos momentos agradáveis e, mesmo assim, sentir falta de alguma coisa mais profunda. Entretermo-nos, viajar, comprar, sair, comer bem ou receber reconhecimento podem produzir prazer, mas uma vida psicologicamente satisfatória também precisa de ligação, autonomia, relações significativas, competência, descanso e uma sensação de que aquilo que fazemos tem algum significado para nós.

Não precisamos de encontrar uma “grande missão” para sermos felizes, mas precisamos, de alguma forma, de reconhecer a nossa vida como uma vida que estamos a escolher e não apenas a cumprir.

“Não sou feliz” significa que estou deprimido?

Por vezes, aquilo que chamamos “não sou feliz” também merece ser explorado com maior cuidado. Não estar eufórico não significa estar deprimido.

A felicidade é uma emoção flutuante e ninguém se sente feliz permanentemente. Mas quando existe uma perda persistente de interesse ou prazer, tristeza, vazio, desesperança, fadiga, alterações significativas do sono ou apetite, dificuldade de concentração, culpa intensa ou uma redução importante do funcionamento diário, já não estamos simplesmente a falar de uma fase de menor satisfação.

Mas também não devemos usar o facto de “termos tudo” para ignorar sofrimento psicológico real.

Quando passamos demasiado tempo em modo de exigência

Outra possibilidade é estarmos tão habituados a funcionar em modo de exigência que já não sabemos muito bem o que sentimos quando não estamos a resolver problemas.

Algumas pessoas passam anos a perseguir objectivos: estudar, trabalhar, ganhar dinheiro, construir uma carreira, cuidar da família, cumprir responsabilidades.

Quando finalmente existe algum espaço, aparece uma sensação estranha de vazio. Não porque a pessoa não tenha nada, mas porque passou tanto tempo a avançar que deixou de perguntar para onde estava a ir.

A produtividade pode esconder emoções durante muito tempo. E quando finalmente paramos, aquilo que estava abafado pelo movimento começa a tornar-se audível.

A gratidão não elimina aquilo que estamos a sentir

Também vale a pena questionar uma ideia culturalmente muito poderosa: “Se eu tenho aquilo que os outros gostariam de ter, devia sentir-me feliz.”

Esta comparação parece lógica, mas pode tornar-se uma forma de invalidarmos a nossa própria experiência. A gratidão não obriga à felicidade.

Podes reconhecer que tens sorte e, simultaneamente, sentir-te perdido. Podes amar a tua família e estar cansado. Podes gostar do teu trabalho e sentir necessidade de mudança. Podes apreciar a tua vida e desejar que alguma coisa seja diferente.

A existência de coisas boas não elimina automaticamente aquilo que está a doer.

Em vez de perguntar “o que me falta?”, pergunta “o que está ausente?”

Talvez por isso algumas das perguntas mais importantes não sejam “O que me falta?”, mas “O que é que eu sinto que está ausente?”

Falta-me descanso? Liberdade? Intimidade? Desafio? Tempo? Propósito? Autenticidade? Ligação? Espaço para mim?

Ou será que aquilo que está ausente não é uma coisa externa, mas a capacidade de sentir prazer e interesse pelas coisas que antes me davam alguma satisfação?

Esta distinção é importante. Uma pessoa que precisa de mudar aspectos da sua vida está perante um problema diferente de alguém que perdeu a capacidade de desfrutar praticamente de tudo.

Estou a viver a minha vida ou a vida que esperavam de mim?

E talvez exista ainda uma pergunta mais desconfortável: “Se eu não precisasse de impressionar ninguém, continuaria a querer esta vida?”

Porque podemos passar anos a perseguir aquilo que aprendemos a considerar sucesso sem perceber que, algures pelo caminho, deixámos de distinguir desejo de expectativa.

Há vidas que parecem perfeitas porque são socialmente admiradas, mas que não são psicologicamente habitáveis para quem as vive.

Não precisas de mudar tudo para começares a sentir-te diferente

Não precisas de destruir a tua vida só porque não te sentes feliz neste momento.

Nem precisas de procurar imediatamente uma nova relação, um novo emprego, uma nova cidade ou uma nova versão de ti próprio.

Às vezes, o primeiro passo é mais simples e mais difícil: parar de discutir com aquilo que estás a sentir e começar a escutá-lo.

A infelicidade nem sempre é uma indicação de que tudo está errado. Pode ser informação.

Pode estar a dizer-te que precisas de descansar, mudar alguma coisa, aproximar-te de alguém, estabelecer limites, recuperar uma parte de ti que abandonaste ou simplesmente reconhecer que estás a atravessar uma fase difícil.

O que está realmente a acontecer dentro de mim?

Ter “tudo” não significa ter tudo aquilo de que psicologicamente precisamos. E não há nada de ingrato em reconhecer isso.

A pergunta não é “tenho motivos suficientes para estar feliz?” A pergunta é “o que está a acontecer dentro de mim?”

É aí que começa uma compreensão mais honesta de nós próprios.

Porque, no final, talvez uma vida boa não seja uma vida em que conseguimos justificar constantemente porque deveríamos estar felizes.

Talvez seja uma vida em que conseguimos sentir aquilo que sentimos, perceber porquê e ter liberdade para fazer alguma coisa a partir daí.

Se sentes que, apesar de aparentemente teres uma vida estável, existe vazio, tristeza, ansiedade, falta de motivação ou uma sensação persistente de que alguma coisa não está bem, não precisas de compreender tudo sozinho.

A terapia pode ser um espaço para parar, explorar o que estás a sentir e perceber o que poderá estar por detrás desse desconforto sem julgamentos e sem a obrigação de teres de encontrar respostas imediatamente.

Marca uma sessão de psicologia e dá espaço ao que estás a sentir. Às vezes, compreender o que se passa dentro de nós é o primeiro passo para começar a construir uma vida que faça sentido também por dentro.

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