A terapia de casal pode ser útil precisamente quando os dois percebem que estão presos num padrão que, sozinhos, não estão a conseguir alterar. Às vezes existe amor, mas deixou de existir comunicação. Outras vezes existe comunicação, mas todas as conversas acabam em conflito. E, noutros casos, o problema nem sequer é aquilo sobre o qual o casal discute, é aquilo que está por trás da discussão.
Quando discutir deixa de resolver
Todos os casais entram em conflito. O conflito, por si só, não significa que uma relação seja disfuncional. O que importa é perceber como o casal entra, permanece e sai do conflito.
Quando todas as discussões acabam da mesma maneira, um acusa, o outro defende-se, um insiste, o outro afasta-se, um levanta a voz, o outro deixa de falar, o problema pode já não ser o tema específico da discussão. Pode existir um padrão relacional que se repete independentemente do assunto.
“Tu nunca me ouves.”
“Estás sempre a criticar-me.”
“Eu critico porque nunca fazes nada.”
“Então nada do que eu faço é suficiente para ti.”
E a discussão continua, mas nenhum dos dois se sente verdadeiramente compreendido.
A terapia pode ajudar o casal a identificar este ciclo e a perceber o papel que cada pessoa desempenha na sua manutenção, substituindo a lógica de “quem tem razão?” por uma pergunta mais útil: “o que está a acontecer entre nós?”
Quando já não conseguem conversar
Há casais que não discutem. Simplesmente deixaram de conversar.
Falam sobre filhos, trabalho, contas, compras, horários e tarefas, mas quase nada sobre aquilo que realmente sentem. A relação começa a funcionar como uma sociedade de gestão doméstica. Existe organização, mas pouca intimidade.
Também pode acontecer o contrário, o casal fala constantemente sobre a relação, mas todas as conversas transformam-se em acusações, justificações ou tentativas de provar quem está certo.
A terapia pode criar um espaço diferente para essa conversa. Um espaço em que ambos conseguem falar e, sobretudo, aprender a ouvir aquilo que está por detrás das palavras.
Porque muitas vezes “nunca tens tempo para mim” significa “tenho medo de já não ser importante para ti”.
E “deixa-me em paz” pode significar “estou tão frustrado que já não sei como continuar esta conversa”.
Quando a confiança foi afectada
Infidelidade, mentiras, ocultação de informação ou outras rupturas de confiança podem abalar profundamente uma relação. Depois de uma traição, por exemplo, não basta dizer “foi um erro” e esperar que tudo volte ao normal.
A pessoa que foi traída pode sentir raiva, tristeza, insegurança e necessidade de respostas. A outra pessoa pode sentir culpa, vergonha, medo de perder a relação ou dificuldade em lidar com a intensidade emocional do parceiro.
Reconstruir a confiança não significa simplesmente esquecer o que aconteceu. Implica compreender o que aconteceu, assumir responsabilidade, estabelecer transparência e perceber se ambos estão disponíveis para reconstruir uma relação diferente da que existia antes.
A terapia pode ajudar a organizar este processo e a evitar que o casal fique permanentemente preso entre a necessidade de falar sobre o passado e a impossibilidade de conseguir ultrapassá-lo.
Quando a intimidade desapareceu
A sexualidade também pode ser uma fonte de sofrimento no casal. Diferenças no desejo, dificuldades sexuais, alterações depois do nascimento de um filho, stress, cansaço, problemas de saúde, medicação ou conflitos emocionais podem afectar profundamente a intimidade.
Mas a intimidade não é apenas sexo.
É também afecto, proximidade, toque, cumplicidade, vulnerabilidade e sensação de ser desejado e importante para o outro. Quando estas dimensões desaparecem, o casal pode continuar a funcionar no dia-a-dia enquanto emocionalmente se vai afastando.
A terapia pode ajudar a falar sobre estes temas sem transformar a conversa numa acusação constante: “não fazemos sexo suficiente” pode esconder “sinto que já não me desejas” ou “sinto que perdemos uma parte importante da nossa relação”.
Quando os filhos mudaram a relação
Ter filhos transforma profundamente a dinâmica de um casal. O tempo diminui, o cansaço aumenta, as responsabilidades multiplicam-se e a relação conjugal pode passar para segundo plano.
É fácil começar a funcionar apenas como pais.
Quem acordou durante a noite? Quem foi buscar a criança? Quem fez o jantar? Quem marcou a consulta? Quem brincou mais? Quem trabalha mais?
Estas discussões parecem ser sobre tarefas, mas podem esconder sentimentos de injustiça, falta de reconhecimento ou solidão.
A terapia pode ajudar a transformar a pergunta “quem faz mais?” numa discussão mais produtiva sobre responsabilidades, expectativas, necessidades e reconhecimento.
Quando estão sempre a trazer o passado para o presente
Outro sinal importante surge quando cada conflito actual rapidamente se transforma numa lista de erros antigos.
Uma discussão sobre dinheiro acaba numa infidelidade de há cinco anos. Uma discussão sobre os filhos transforma-se numa crítica à forma como o parceiro sempre lidou com a família. Uma pequena falha é utilizada como prova de que “tu sempre foste assim”.
Quando o passado ainda está emocionalmente activo, provavelmente existe alguma coisa que não foi verdadeiramente processada.
A terapia pode ajudar a distinguir entre lembrar para compreender e lembrar para atacar. O objectivo não é apagar a história da relação, mas impedir que todas as discussões sejam julgamentos sobre tudo aquilo que aconteceu anteriormente.
Quando um dos dois já está a pensar em terminar
A terapia de casal também pode ser útil quando existe dúvida sobre a continuidade da relação. Nem sempre o objectivo deve ser “salvar o casamento”.
Às vezes, um dos elementos já decidiu terminar e o outro ainda está a tentar perceber se existe alguma possibilidade. Outras vezes, ambos estão ambivalentes: continuam a gostar um do outro, mas já não sabem se conseguem continuar daquela forma.
Nestes casos, a terapia pode ajudar a tomar uma decisão com maior clareza, em vez de prolongar indefinidamente um ciclo de aproximação e afastamento.
Ficar juntos não deve ser o único resultado considerado. O objectivo é compreender o que está a acontecer e ajudar o casal a tomar decisões mais conscientes e saudáveis.
Quando não é preciso esperar por uma crise
Talvez uma das maiores vantagens da terapia de casal seja precisamente poder ser procurada antes de a relação estar profundamente deteriorada.
Um casal pode procurar ajuda porque quer melhorar a comunicação, preparar-se para uma grande mudança de vida, adaptar-se à parentalidade, resolver conflitos recorrentes ou simplesmente compreender melhor a sua dinâmica.
Não é necessário esperar pela infidelidade, pela separação ou pela última discussão.
Tal como não esperamos que uma pequena fissura numa parede se transforme numa parede destruída para começar a repará-la, também não precisamos de esperar que uma relação entre em ruptura para cuidar dela.
E quando a terapia de casal não é indicada?
A terapia de casal só pode ser verdadeiramente útil quando existe, de parte a parte, vontade e compromisso para trabalhar a relação. Não é necessário que ambos estejam no mesmo ponto ou que concordem em tudo, mas é importante que exista disponibilidade para ouvir, reflectir e participar no processo.
A terapia também não deve ser encarada como um tribunal. O psicólogo não está ali para decidir quem tem razão, validar a versão de um contra o outro ou servir de “arma de arremesso” numa discussão. Se um dos elementos procura a terapia apenas para provar que está certo, expor os erros do parceiro ou fazer com que este “ouça do psicólogo” aquilo que já lhe disse em casa, dificilmente será possível construir um processo terapêutico saudável.
O objectivo não é descobrir quem ganhou a discussão. É perceber o que está a acontecer entre os dois e o que podem fazer, em conjunto, para mudar esse padrão. Porque, numa relação, o casal não deve estar um contra o outro, estão os dois contra o problema.
Se sentes que a relação está a atravessar uma fase difícil, não precisas de esperar que chegue ao limite para procurar ajuda. Na Humente, a terapia de casal proporciona um espaço seguro para compreenderes o que está a acontecer, melhorar a comunicação e construir novas formas de estar na relação. Talvez não voltem ao que eram antes, talvez possam construir algo ainda melhor.