Uma das perguntas mais difíceis para um pai ou uma mãe é também uma das mais importantes: “Será que o meu filho está apenas a passar por uma fase ou será que precisa de ajuda?” Muitas vezes, a dúvida surge depois de uma mudança de comportamento: a criança tornou-se mais irritável, começou a ter dificuldades na escola, deixou de querer estar com os amigos, passou a dormir pior ou parece mais triste e ansiosa.
E, perante isto, é fácil cair em dois extremos: desvalorizar tudo como “uma fase” ou interpretar qualquer alteração como sinal de um problema psicológico. A realidade é mais complexa. Nem todo o sofrimento infantil significa que uma criança precisa de acompanhamento psicológico, mas sofrimento persistente, intenso ou com impacto significativo na vida da criança merece ser levado a sério.
Nem todo o comportamento difícil é um problema psicológico
Crianças e adolescentes atravessam naturalmente períodos de maior instabilidade emocional. Birras, medos, dificuldades em separar-se dos pais, alterações de humor, conflitos com irmãos ou alguma resistência à escola podem fazer parte do desenvolvimento, dependendo da idade e do contexto. O facto de uma criança ter emoções intensas não significa, por si só, que exista uma perturbação psicológica.
A questão mais importante não é perguntar apenas “o meu filho está a comportar-se de forma diferente?”, mas sim: “Há quanto tempo isto acontece?”, “Com que intensidade?”, “Em que contextos?”, “Está a interferir com a vida dele?” e “Está a causar sofrimento significativo?”. Na avaliação psicológica infantil, o comportamento nunca deve ser analisado isoladamente. É necessário compreender a idade e o desenvolvimento da criança, o contexto familiar e escolar, acontecimentos recentes e a forma como estas dificuldades aparecem ao longo do tempo.
Quando uma mudança de comportamento merece atenção
Um dos sinais mais relevantes é uma mudança persistente relativamente ao funcionamento habitual da criança. Uma criança habitualmente comunicativa que passa a isolar-se, uma criança que gostava de ir à escola e começa sistematicamente a recusar-se, uma criança que dormia bem e passa a ter dificuldades significativas de sono ou um adolescente que deixa de demonstrar interesse por actividades que anteriormente lhe davam prazer são exemplos que justificam atenção.
Também é importante observar alterações persistentes no humor, ansiedade ou medos muito intensos, irritabilidade frequente, dificuldades significativas de concentração, alterações marcadas no sono ou alimentação, queixas físicas recorrentes sem uma explicação médica clara, comportamentos agressivos muito acima do habitual ou uma queda significativa no funcionamento escolar e social.
Nenhum destes sinais significa automaticamente que exista uma perturbação psicológica. São sinais de que vale a pena compreender melhor o que está a acontecer.
O impacto na vida da criança é fundamental
Imagine duas crianças que têm medo de dormir sozinhas. Numa, o medo é ocasional e, com apoio dos pais, consegue progressivamente ultrapassá-lo. Noutra, o medo é tão intenso que impede regularmente o sono, provoca sofrimento significativo e começa a afectar toda a rotina familiar. O comportamento pode parecer semelhante, mas o impacto é muito diferente.
É por isso que uma avaliação psicológica não deve funcionar como uma simples lista de sintomas. O que importa é perceber a intensidade, duração, frequência e interferência da dificuldade.
O mesmo acontece com a ansiedade. Alguma ansiedade perante um teste, uma mudança de escola ou uma situação social pode ser perfeitamente compreensível. Mas quando a preocupação começa a dominar a vida da criança, conduz a evitamentos frequentes ou interfere significativamente com a escola, relações, sono ou actividades quotidianas, é importante procurar ajuda.
A escola pode ser uma fonte importante de informação
As crianças nem sempre conseguem dizer aos adultos aquilo que estão a sentir. Muitas vezes, o sofrimento aparece primeiro no comportamento.
Por isso, alterações observadas pelos professores podem ser importantes: queda inesperada do rendimento, dificuldades de concentração que não existiam anteriormente, isolamento, conflitos frequentes, choro, ansiedade perante a escola, recusa em participar ou mudanças significativas na forma como a criança se relaciona com os colegas.
Isto não significa que uma dificuldade escolar seja necessariamente psicológica. Pode estar relacionada com dificuldades de aprendizagem, problemas relacionais, bullying, alterações familiares, necessidades educativas específicas ou outras situações. É precisamente por isso que uma avaliação adequada é importante.
Alguns acontecimentos justificam atenção especial
Existem momentos em que uma criança pode beneficiar de apoio psicológico mesmo quando os sinais ainda não parecem muito evidentes. Divórcio ou separação dos pais, perda de alguém significativo, mudança importante de contexto familiar, experiências de bullying, dificuldades de adaptação, acontecimentos potencialmente traumáticos ou alterações familiares profundas podem representar desafios importantes.
Nem todas as crianças que passam por estas experiências desenvolvem problemas psicológicos. Muitas conseguem adaptar-se com o apoio da família e da sua rede de suporte. Mas proporcionar um espaço seguro para a criança falar, organizar aquilo que aconteceu e desenvolver estratégias para lidar com a mudança não significa que exista algo “errado” com ela. Significa reconhecer que, por vezes, todos precisamos de ajuda para atravessar determinadas fases.
E se o meu filho disser que não quer ir ao psicólogo?
É uma preocupação frequente dos pais. E, dependendo da idade, a criança pode imaginar que ir ao psicólogo significa que está “doente”, que fez alguma coisa errada ou que os pais querem que alguém a corrija.
É importante apresentar o acompanhamento psicológico de outra forma: como um espaço onde existe alguém preparado para ajudar a compreender aquilo que está a ser difícil. Não é necessário obrigar a criança a contar tudo imediatamente. A relação terapêutica também se constrói através da confiança e do tempo.
No caso das crianças mais pequenas, o psicólogo pode utilizar brincadeira, desenho ou outras formas adequadas à idade para compreender o seu mundo emocional. Com adolescentes, pode ser particularmente importante respeitar a sua autonomia e explicar claramente os limites da confidencialidade, bem como o papel dos pais no processo.
Os pais também fazem parte da intervenção
Quando uma criança apresenta dificuldades emocionais ou comportamentais, é tentador pensar que “o problema está nela”. Mas a psicologia infantil não deve funcionar dessa forma.
A criança está inserida numa família, numa escola e num contexto social. Por isso, o acompanhamento pode envolver também os pais, ajudando-os a compreender determinados comportamentos, melhorar a comunicação, estabelecer limites, responder às necessidades emocionais da criança e identificar padrões relacionais que possam estar a contribuir para a dificuldade.
Isto não significa procurar culpados. Significa procurar compreender o sistema em que a criança está inserida.
Por vezes, aquilo que parece ser “uma criança difícil” é uma criança com uma dificuldade que ainda não sabe expressar. E, outras vezes, aquilo que parece ser um problema da criança é também um sinal de que toda a família está a atravessar uma fase particularmente exigente.
Não é preciso esperar que o problema fique grave
Uma das ideias que mais pode atrasar a procura de ajuda é: “Se calhar ainda não é suficientemente grave para ir ao psicólogo.”
Não é necessário esperar por uma crise para procurar orientação. Uma primeira consulta pode servir precisamente para avaliar se existe uma dificuldade clinicamente relevante, compreender o contexto e decidir se é necessário acompanhamento, se bastam algumas orientações parentais ou se é preferível simplesmente monitorizar a situação.
E, naturalmente, existem situações que exigem uma resposta mais rápida. Se uma criança ou adolescente falar sobre querer morrer, desaparecer ou magoar-se, apresentar comportamentos de auto-agressão, estiver em risco de ser magoado por alguém ou revelar uma alteração súbita e grave do funcionamento, não devemos esperar para ver se passa. É necessária avaliação profissional adequada e, perante risco imediato, deve ser procurada ajuda de emergência.
A pergunta certa talvez não seja “há alguma coisa errada com o meu filho?”
Quando os pais procuram um psicólogo, muitas vezes chegam com esta preocupação: “Será que o meu filho tem algum problema?”
Talvez uma pergunta mais útil seja: “O que está a acontecer com o meu filho e de que forma podemos ajudá-lo?”
Esta mudança parece pequena, mas é fundamental. Retira o foco da ideia de defeito e coloca-o na compreensão. Uma criança que sofre não precisa de ser rotulada antes de ser escutada. Precisa de adultos atentos, disponíveis e capazes de reconhecer quando aquilo que está a acontecer ultrapassa aquilo que conseguem resolver sozinhos.
O acompanhamento psicológico não deve ser visto como uma sentença nem como um sinal de fracasso parental. Pode simplesmente ser um espaço de compreensão, prevenção e desenvolvimento.
Porque pedir ajuda cedo não significa que falhámos enquanto pais.
Às vezes, significa exactamente o contrário: que estivemos atentos o suficiente para perceber que o nosso filho não precisava apenas que lhe dissessem “vai passar”. Precisava que alguém parasse para perceber o que estava a acontecer.
Na Humente, acreditamos que acompanhar uma criança ou adolescente é também compreender o mundo em que está inserido. O nosso trabalho procura olhar para o comportamento, mas também para as emoções, relações familiares, contexto escolar e padrões que podem estar a contribuir para as dificuldades.
Se tens dúvidas sobre o bem-estar emocional do teu filho, não precisas de esperar que as dificuldades se agravem para procurar ajuda. Na Humente, podes encontrar um espaço seguro e adequado à idade da criança, onde as suas necessidades são avaliadas com cuidado. Marca uma sessão e dá o primeiro passo para compreender melhor o que o teu filho está a sentir e como o podes ajudar.