Dizer a uma criança que os pais se vão divorciar é uma das conversas mais difíceis que uma família pode ter. Não existe uma frase perfeita capaz de retirar a tristeza, a confusão ou o medo daquele momento. E talvez esse seja o primeiro ponto importante: o objectivo não é impedir que a criança sofra é ajudá-la a atravessar a mudança sem sentir que perdeu a segurança, o amor ou o seu lugar na família.
O divórcio transforma a relação entre os adultos, mas não precisa de transformar o vínculo entre pais e filhos.
O que dizer e o que não dizer
A criança precisa de uma explicação verdadeira, mas adequada à sua idade. Não precisa de conhecer todos os motivos que levaram à separação, nem deve ser colocada no papel de confidente de um dos pais. Questões relacionadas com infidelidade, dinheiro, conflitos conjugais ou acusações pertencem ao mundo dos adultos.
Uma mensagem simples pode ser muito mais segura: “A mãe e o pai decidiram deixar de viver juntos. Esta é uma decisão dos adultos e não aconteceu por tua causa. Continuamos a ser os teus pais, continuamos a amar-te e vamos continuar a cuidar de ti.”
É importante evitar frases como “o teu pai abandonou-nos”, “a tua mãe é que quis isto” ou “um dia vais perceber o que aconteceu”. Mesmo quando existe muita mágoa entre os adultos, a criança não deve ser transformada num juiz da relação.
Ela não precisa de escolher quem tem razão. Precisa de saber que continua a poder amar os dois pais.
“A culpa é minha?”
Esta é uma das preocupações que os pais devem abordar explicitamente. As crianças podem sentir, mesmo sem o dizer, que fizeram alguma coisa para provocar a separação. Uma discussão que tiveram, um comportamento difícil, uma má nota ou simplesmente a sensação de que “não foram suficientemente boas” pode ser incorporada na explicação que estão a tentar construir.
Por isso, dizer “não foi por tua causa” uma única vez pode não ser suficiente. É uma mensagem que pode precisar de ser repetida ao longo do tempo, sobretudo quando surgem novas mudanças.
Também é importante dizer que não cabe à criança resolver o problema. Não deve sentir que precisa de se portar melhor, escolher um dos pais, aproximar os adultos ou impedir que discutam. O divórcio é uma decisão e uma responsabilidade dos adultos.
Preparar a criança para aquilo que vai mudar
Depois de ouvir “vamos divorciar-nos”, uma criança pode não querer saber imediatamente porquê. Pode querer saber algo muito mais concreto: “Onde vou dormir?”
Por isso, depois de explicar a separação, é importante falar sobre o que vai acontecer no quotidiano. Onde vai viver? Quando estará com cada progenitor? Vai continuar na mesma escola? Quem a vai buscar? Vai mudar de casa? O que acontece aos fins-de-semana? Vai continuar a ver os avós, amigos e familiares?
Quanto mais previsível for a nova rotina, mais segurança a criança pode sentir.
Naturalmente, nem todas as respostas estarão disponíveis no primeiro momento. Quando não sabemos alguma coisa, é preferível dizer “ainda não sabemos, mas quando soubermos vamos explicar-te” do que inventar certezas apenas para tranquilizar.
Não prometas aquilo que não podes garantir
Uma das frases mais difíceis pode ser: “Os meus pais vão voltar a ficar juntos?”
Se a decisão está tomada, alimentar uma expectativa de reconciliação pode tornar a adaptação mais difícil. Ao mesmo tempo, não é necessário transformar a conversa numa declaração fria e definitiva.
Podemos responder: “Sei que gostarias que isso acontecesse. Neste momento, a decisão é que vamos viver separados. Mas uma coisa não vai mudar: continuamos a ser os teus pais e vamos continuar a cuidar de ti.”
A criança pode continuar a desejar que os pais voltem a estar juntos. Permitir esse desejo não significa alimentar uma falsa esperança. Significa reconhecer que a criança está a fazer o seu próprio processo de adaptação.
Deixa espaço para todas as emoções
Uma criança pode ficar triste. Pode ficar zangada. Pode parecer indiferente. Pode fazer muitas perguntas ou não querer falar sobre o assunto. Pode sentir alívio se tiver vivido num ambiente de conflito constante. Pode sentir culpa por esse alívio. Pode estar bem durante algumas semanas e reagir mais tarde.
Não existe uma reacção emocional “correcta” ao divórcio.
Por isso, frases como “tens de ser forte”, “não chores”, “já és crescido” ou “não tens motivos para estar triste” podem dificultar o processamento emocional. É mais útil transmitir: “Podes sentir o que estás a sentir. Se quiseres falar, estou aqui.”
E não é necessário transformar todas as emoções numa conversa profunda. Às vezes, uma criança precisa simplesmente de brincar, desenhar, fazer perguntas e continuar a sua rotina.
Nunca coloques o filho no meio
Depois do divórcio, a comunicação entre os adultos pode ser difícil. Mas uma das maiores protecções emocionais que os pais podem oferecer é não colocar os filhos no centro do conflito.
A criança não deve ser mensageira:
“Diz à tua mãe que…”
Não deve ser informadora:
“O que é que o teu pai anda a fazer?”
Não deve ser árbitra:
“Com quem preferes ficar?”
E não deve ser confidente:
“Só tu sabes como o teu pai realmente é.”
Estas situações obrigam a criança a carregar problemas que não lhe pertencem. O filho pode ser informado sobre aquilo que afecta a sua vida, mas não deve ser envolvido nos conflitos que pertencem à relação entre os adultos.
Os pais podem discordar e continuar a ser pais
Uma separação não exige que os dois progenitores pensem da mesma maneira sobre tudo. Podem existir diferenças nas regras, nos horários ou na forma de educar. O que é particularmente importante é evitar que essas diferenças se transformem numa competição.
“Na casa do teu pai podes fazer isso, mas aqui não.”
“Na casa da tua mãe deixam-te fazer tudo.”
Este tipo de comparação pode colocar a criança perante uma escolha implícita. O objectivo não é criar duas casas exactamente iguais, mas garantir coerência suficiente, previsibilidade e ausência de competição pelo afecto da criança.
E talvez uma das mensagens mais importantes seja esta: a criança não deve sentir que amar um progenitor é trair o outro.
Pode ter saudades da mãe quando está com o pai. Pode sentir saudades do pai quando está com a mãe. Pode querer contar uma coisa boa que aconteceu numa casa à outra. Isto não deve ser interpretado como rejeição.
O que acontece quando os pais não conseguem falar sem discutir?
Nem sempre é possível ter uma conversa conjunta sobre o divórcio. Se existe um nível elevado de conflito, pode ser mais importante proteger a criança de uma discussão do que criar uma aparência de união entre os adultos.
O princípio fundamental é simples: a criança não precisa de assistir ao conflito para perceber que os pais estão separados.
Se a comunicação entre os progenitores é particularmente difícil, pode ser útil recorrer a mediação familiar ou acompanhamento psicológico para encontrar formas mais funcionais de comunicar e tomar decisões relacionadas com os filhos.
E quando existe violência, ameaça, controlo coercivo ou receio pela segurança de alguém, a situação deve ser tratada de forma diferente, dando prioridade à segurança e ao apoio profissional adequado.
Quando procurar acompanhamento psicológico?
Nem todas as crianças precisam de terapia porque os pais se divorciaram. Muitas conseguem adaptar-se à nova realidade com o apoio consistente da família.
No entanto, é importante estar atento a alterações persistentes ou significativas: ansiedade intensa, problemas de sono, recusa escolar, isolamento, agressividade marcada, regressões comportamentais, queixas físicas frequentes, queda importante no rendimento ou sentimentos persistentes de culpa, tristeza ou medo.
Falar com os filhos sobre o divórcio pode ser difícil e é natural surgirem dúvidas sobre o que dizer, como dizer e como responder às emoções da criança. Uma consulta de psicologia pode ajudar a criança a compreender e lidar com esta mudança, enquanto o aconselhamento parental pode ajudar-te, enquanto pai ou mãe, a encontrar a melhor forma de conduzir esta conversa e acompanhar o teu filho ao longo do processo.
Se sentes que precisas de apoio, marca uma consulta e dá este passo acompanhado.