Hiperatividade e Défice de Atenção nas Crianças

“Não consegue estar quieto” ou “parece que não ouve”? Nem sempre é falta de esforço. Há comportamentos que merecem ser compreendidos de outra forma (…)

Uma criança que não pára quieta, se distrai durante os trabalhos de casa, interrompe os adultos ou se esquece constantemente das coisas não tem necessariamente Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção (PHDA).

Todas as crianças podem ser desatentas, impulsivas ou agitadas, sobretudo quando estão cansadas, aborrecidas, frustradas ou perante uma tarefa pouco estimulante. A questão começa a ser diferente quando estes comportamentos são persistentes, aparecem em diferentes contextos e interferem de forma significativa com a vida da criança.

A Perturbação de Hiperactividade e Défice de Atenção (PHDA) é uma perturbação do neurodesenvolvimento reconhecida no DSM-5-TR e caracteriza-se por um padrão persistente de desatenção e/ou hiperactividade-impulsividade que prejudica o funcionamento ou o desenvolvimento. Por isso, não é a presença de um comportamento isolado que deve preocupar os pais, mas o padrão global e o impacto que esse padrão tem na criança.

Quando a desatenção pode ser um sinal de alerta?

Algumas crianças parecem estar constantemente “no mundo delas”. Podem ter dificuldade em manter a atenção numa tarefa, esquecer instruções, perder frequentemente materiais escolares, saltar etapas, não terminar aquilo que começaram ou precisar de muitos lembretes para actividades que, para a sua idade, já deveriam conseguir realizar com maior autonomia.

Muitas vezes, os pais interpretam estes comportamentos como preguiça, falta de interesse ou falta de responsabilidade: “Se ele quisesse, conseguia.” Mas essa interpretação pode ser injusta. Uma criança com dificuldades de atenção pode querer cumprir uma tarefa e, ainda assim, ter dificuldade em organizar e manter o comportamento necessário para a completar.

É importante observar sobretudo se estas dificuldades são frequentes, desproporcionais à idade e suficientemente relevantes para afectar a escola, as relações ou a autonomia.

E quando existe muita agitação?

A hiperactividade também pode assumir formas diferentes. Algumas crianças estão constantemente em movimento, levantam-se quando deveriam estar sentadas, correm ou trepam em situações inadequadas, falam excessivamente ou parecem incapazes de brincar tranquilamente.

Outras apresentam sobretudo uma sensação de inquietação e dificuldade em permanecer envolvidas numa actividade durante muito tempo. Ser uma criança energética não é o mesmo que ter PHDA. Uma criança pode ter muita energia e conseguir adaptar o seu comportamento às diferentes situações.

O sinal de alerta surge quando a agitação é persistente, difícil de regular e claramente superior ao esperado para o seu nível de desenvolvimento, interferindo com a aprendizagem, a convivência ou as actividades quotidianas.

A impulsividade também merece atenção

Interromper constantemente, responder antes de a pergunta terminar, ter dificuldade em esperar pela sua vez, agir sem pensar nas consequências ou intrometer-se nas actividades dos outros podem ser manifestações de impulsividade. Mais uma vez, alguma impulsividade faz parte do desenvolvimento infantil.

O que importa é perceber se a criança parece ter dificuldade consistente em travar uma resposta mesmo quando conhece a regra e compreende as consequências.

Uma criança pode saber que não deve interromper e, ainda assim, ter dificuldade em inibir esse comportamento. Isto não significa que não deva aprender limites ou assumir responsabilidades, significa que poderá precisar de estratégias diferentes para desenvolver essa capacidade de autorregulação.

O contexto é fundamental

Um dos erros mais comuns é olhar apenas para o comportamento em casa. Uma criança pode ser muito organizada na escola e apresentar enormes dificuldades em casa, ou precisamente o contrário.

Por isso, numa avaliação de PHDA é importante perceber como a criança funciona em diferentes ambientes e com diferentes exigências. O DSM-5-TR estabelece critérios que incluem a presença de vários sintomas antes de determinada idade e a manifestação das dificuldades em mais do que um contexto, sendo necessário avaliar também o impacto funcional.

Isto é particularmente importante porque dificuldades de atenção ou comportamento podem surgir por muitas outras razões: ansiedade, problemas de sono, dificuldades de aprendizagem, stress familiar, alterações emocionais ou outras condições do desenvolvimento.

Diagnosticar PHDA não deve ser um processo de “marcar sintomas numa lista”, deve ser uma avaliação cuidadosa da criança como um todo.

“Mas ele consegue estar concentrado quando gosta da actividade”

Esta frase é muito frequente: “Quando está a jogar ou a fazer aquilo de que gosta, consegue estar concentrado durante horas. Portanto, não pode ser PHDA.” Mas a realidade é mais complexa. A capacidade de manter a atenção não é simplesmente um interruptor que está ligado ou desligado.

Motivação, novidade, interesse, recompensa e nível de estimulação podem influenciar profundamente a capacidade de uma criança manter-se envolvida numa actividade. Uma criança pode conseguir uma concentração intensa numa actividade altamente estimulante e, ao mesmo tempo, ter enormes dificuldades com tarefas repetitivas, pouco motivadoras ou que exigem organização prolongada. Isso não significa automaticamente PHDA, mas é uma informação relevante para compreender o padrão de funcionamento.

O impacto emocional não deve ser ignorado

As dificuldades associadas à PHDA não ficam necessariamente dentro da sala de aula. Uma criança que é constantemente chamada à atenção, que ouve repetidamente “és distraído”, “nunca estás quieto” ou “porque é que nunca fazes as coisas como deve ser?” pode começar a construir uma imagem negativa de si própria.

Pode sentir-se menos capaz, mais frustrada ou acreditar que é “má” quando, na realidade, está a enfrentar dificuldades de autorregulação que ainda não compreende.

O comportamento é aquilo que os adultos vêem, a experiência emocional da criança é aquilo que muitas vezes fica escondido. Por isso, perceber o que está por detrás do comportamento é tão importante como estabelecer limites.

O que devem fazer os pais?

O primeiro passo não é procurar imediatamente um diagnóstico. É observar. Durante algumas semanas, tenta perceber quando surgem as dificuldades, em que situações são mais intensas, o que parece ajudar, como a criança dorme, como funciona na escola, como se relaciona com outras crianças e que impacto estas dificuldades têm no seu dia-a-dia. Falar com professores pode ser particularmente útil, porque permite perceber se determinados comportamentos aparecem também noutros contextos.

Se existe um padrão persistente e significativo, uma avaliação por um profissional qualificado pode ajudar a perceber o que está realmente a acontecer.

E há uma ideia que considero particularmente importante para os pais: procurar uma avaliação não significa colocar um rótulo numa criança. Significa tentar compreender melhor aquilo que ela está a viver. Uma avaliação pode confirmar PHDA, mas também pode revelar que as dificuldades têm outra explicação ou que existem vários factores envolvidos. Em qualquer dos casos, compreender melhor permite intervir melhor.

A PHDA não define uma criança, tal como uma dificuldade de atenção não define o seu potencial. O objectivo não deve ser transformar uma criança activa numa criança permanentemente quieta, nem exigir que esteja sempre concentrada. O objectivo é ajudá-la a desenvolver as competências necessárias para aprender, regular-se, relacionar-se e tornar-se progressivamente mais autónoma.

Quanto mais cedo os adultos deixam de perguntar apenas “Como faço para ele parar?” e começam a perguntar “O que está a dificultar este comportamento e o que precisa esta criança de aprender?”, maior é a possibilidade de responder às necessidades reais da criança.

Se sentes que a atenção, a impulsividade ou a agitação estão a dificultar o dia a dia da criança, não precisas de enfrentar essas dificuldades sozinho. Uma consulta de psicologia ou uma avaliação pode ajudar a compreender melhor o que está a acontecer e a identificar estratégias adequadas às necessidades da criança. Marca uma sessão e dá o primeiro passo para a compreender e apoiar de forma mais ajustada.

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