Como ensinar as crianças a lidar com a frustração

Birras, choro e “não consigo”? Descobre como ajudar o teu filho a lidar com a frustração e a desenvolver ferramentas para gerir emoções difíceis (…)

Uma criança que não sabe lidar com a frustração pode chorar porque perdeu um jogo, fazer uma birra porque ouviu “não”, desistir quando uma tarefa se torna difícil ou reagir com raiva quando alguma coisa não acontece como esperava.

Para os pais, estes momentos podem ser particularmente desgastantes. É tentador tentar eliminar imediatamente a frustração, dando aquilo que a criança quer, resolver o problema por ela ou dizer “não chores”. Mas existe um problema nesta estratégia, se retirarmos constantemente a frustração da vida de uma criança, retiramos também oportunidades importantes para aprender a lidar com ela.

A capacidade de tolerar frustração não nasce pronta. Desenvolve-se progressivamente através da experiência, da relação com os adultos e da aprendizagem de estratégias de regulação emocional.

A frustração faz parte do desenvolvimento

A frustração aparece sempre que existe uma diferença entre aquilo que queremos e aquilo que realmente acontece. E as crianças encontram este desfasamento constantemente. Querem continuar a brincar, mas é hora de ir para casa, querem ganhar, mas perdem, querem aquele brinquedo, mas os pais dizem que não, querem fazer alguma coisa sozinhas, mas ainda não conseguem.

Para um adulto, muitas destas situações parecem pequenas. Para uma criança, podem representar uma experiência emocional muito intensa. Isto acontece porque as capacidades de controlo dos impulsos, regulação emocional, flexibilidade cognitiva e tolerância à espera ainda estão em desenvolvimento. Não podemos exigir a uma criança uma capacidade emocional que ainda está a aprender.

Isto não significa que devemos evitar todas as situações frustrantes. Significa que precisamos de ajustar as nossas expectativas à idade e ao desenvolvimento da criança e ajudá-la a construir, gradualmente, essa capacidade.

Não precisas de resolver imediatamente a frustração

Quando o nosso filho está a sofrer, o impulso natural é aliviar esse sofrimento. E, muitas vezes, fazemos isso resolvendo o problema.

A criança não consegue montar o brinquedo? Fazemos nós. Perdeu o jogo? Deixamo-la ganhar. Está zangada porque não pode ter alguma coisa? Damos-lhe. Está a tentar fazer uma tarefa difícil? Fazemos por ela.

A intenção é boa, queremos evitar sofrimento. Mas, se isto acontecer constantemente, a criança pode aprender uma mensagem involuntária: “Quando alguma coisa é difícil, alguém tem de resolver por mim.”

Ensinar tolerância à frustração implica, algumas vezes, permanecer ao lado da criança sem retirar imediatamente a dificuldade.

“Eu sei que está difícil.”
“Estás frustrado porque não está a resultar.”
“Queres que te ajude ou queres tentar mais uma vez sozinho?”

Existe uma diferença enorme entre abandonar uma criança perante a dificuldade e estar presente sem fazer aquilo que ela já é capaz de tentar fazer.

Validar a emoção não significa ceder

Uma criança pode estar profundamente frustrada e o limite continuar a existir.

“Eu sei que estás muito zangado porque querias mais tempo para jogar. Mesmo assim, agora vamos desligar.”
“Percebo que querias aquele brinquedo. Hoje não o vamos comprar.”
“Podes estar zangado. Não podes bater.”

Esta distinção é essencial. A emoção merece ser reconhecida, o comportamento continua a precisar de limites.

Quando dizemos “não precisas de ficar assim” ou “isso não é motivo para chorar”, podemos estar a transmitir que determinadas emoções são inadequadas ou exageradas. Quando cedemos sempre perante uma explosão emocional, transmitimos outra mensagem, que a emoção precisa de ser eliminada e que a intensidade do comportamento pode alterar qualquer limite.

O objectivo está algures entre estes dois extremos: “Eu compreendo que estás frustrado” e “eu continuo a manter o limite.”

Ensina a criança a nomear aquilo que sente

Uma criança que só sabe dizer “estou mal” tem menos ferramentas para compreender o que lhe está a acontecer do que uma criança que progressivamente consegue distinguir entre zanga, tristeza, medo, vergonha, desilusão ou frustração.

Nomear emoções não faz desaparecer automaticamente aquilo que sentimos. Mas cria distância e compreensão. Em vez de a criança ser simplesmente “engolida” pela emoção, começa a conseguir reconhecê-la.

“Estás frustrado porque tentaste e não conseguiste.”
“Parece que ficaste muito desiludido por não teres ganho.”
“Estás zangado porque querias continuar.”

Com o tempo, estas palavras tornam-se ferramentas internas. A criança começa a conseguir dizer aquilo que antes apenas conseguia expressar através do comportamento.

Não transformes o erro num problema

A forma como os adultos reagem aos erros influencia profundamente a relação que uma criança desenvolve com a dificuldade.

Se cada erro é recebido com crítica, comparação ou impaciência, a criança pode começar a associar dificuldade a incompetência: “Se não consigo à primeira, é porque não sou capaz.”

Por isso, é importante normalizar o processo de aprendizagem.

“É difícil porque ainda estás a aprender.”
“Não conseguiste desta vez. Vamos perceber o que podes experimentar agora.”
“Errar faz parte de aprender.”

O objectivo não é convencer a criança de que consegue fazer tudo. É ensiná-la a tolerar a experiência de ainda não conseguir.

Existe uma diferença psicológica importante entre “não consigo” e “ainda não consigo”. A segunda formulação mantém aberta a possibilidade de aprendizagem sem transformar uma dificuldade momentânea numa definição da própria pessoa.

Cuidado com o excesso de elogios

Parece paradoxal, mas ensinar tolerância à frustração não passa por dizer constantemente à criança que é “a melhor”, “superinteligente” ou que tudo aquilo que faz está fantástico.

Quando o valor pessoal fica demasiado associado ao sucesso, o erro pode tornar-se ameaçador. Se uma criança aprende que é “inteligente” porque consegue sempre, o momento em que não consegue pode ser vivido como uma ameaça à sua identidade.

É muitas vezes mais útil reconhecer o processo:

“Gostei da forma como continuaste a tentar.”
“Encontraste uma estratégia diferente.”
“Percebeste onde estava o erro.”
“Foste pedir ajuda quando precisaste.”

Assim, o foco deixa de estar apenas no resultado e passa a estar também na capacidade de persistir, adaptar-se e aprender.

Dá espaço para a criança tentar

Uma das formas mais poderosas de desenvolver tolerância à frustração é permitir que a criança tenha experiências reais de dificuldade.

Isso pode significar deixá-la tentar apertar os atacadores, montar um puzzle, resolver um problema, perder um jogo, negociar uma brincadeira com outra criança ou lidar com uma pequena desilusão sem que o adulto intervenha imediatamente.

Naturalmente, isto deve ser adequado à idade. Não estamos a falar de colocar uma criança perante dificuldades que ultrapassam os seus recursos. Estamos a falar de criar desafios suficientemente difíceis para exigirem esforço, mas suficientemente possíveis para permitirem aprendizagem.

É nesse espaço que a criança descobre algo fundamental: “Isto é difícil e eu consigo continuar.”

Ensina estratégias quando a criança está calma

É difícil ensinar uma criança a respirar, parar, pedir ajuda ou reformular pensamentos no pico da frustração. Essas competências devem ser treinadas quando a criança está tranquila.

Podemos praticar: fazer uma pausa, respirar lentamente, afastar-se durante alguns momentos, pedir ajuda, dividir uma tarefa em partes mais pequenas ou experimentar novamente depois de descansar.

E, sobretudo, devemos mostrar estas estratégias através do nosso próprio comportamento.

“Estou frustrado porque isto não está a correr como queria. Vou fazer uma pausa e tentar novamente.”

Quando uma criança vê um adulto lidar com a própria frustração sem gritar, desistir ou culpar os outros, recebe uma aprendizagem que nenhuma explicação consegue substituir.

A frustração não precisa de desaparecer para a criança continuar

Talvez uma das maiores mudanças na parentalidade aconteça quando deixamos de pensar que o nosso trabalho é fazer com que a criança se sinta sempre bem. Não é.

O nosso papel é ajudá-la a desenvolver recursos para lidar com aquilo que nem sempre pode ser mudado.

A vida terá recusas, perdas, esperas, erros, injustiças, desilusões e situações que não dependem de nós. Uma criança protegida de todas estas experiências não fica necessariamente mais preparada para lidar com elas. Pelo contrário, pode chegar à adolescência e à idade adulta com pouca tolerância perante aquilo que não consegue controlar.

A educação emocional não consiste em eliminar emoções desagradáveis. Consiste em ensinar que conseguimos senti-las sem sermos dominados por elas.

E quando a frustração se transforma sempre numa explosão?

É importante distinguir entre reacções próprias do desenvolvimento e dificuldades persistentes de regulação emocional. Se as explosões forem muito frequentes, intensas e desproporcionais à situação, se interferirem significativamente com a escola, relações familiares ou sociais, ou se houver agressividade recorrente, sofrimento intenso ou uma mudança marcada relativamente ao funcionamento habitual da criança, pode ser importante procurar orientação profissional.

Não significa necessariamente que exista uma perturbação psicológica. Significa que vale a pena compreender melhor aquilo que está a acontecer, tendo em conta a idade, o desenvolvimento, o contexto familiar e escolar e outros factores relevantes.

Ensinar uma criança a lidar com a frustração é, no fundo, ensiná-la a viver num mundo que nem sempre corresponde àquilo que deseja. É ajudá-la a descobrir que pode ficar zangada sem magoar, triste sem desistir, desiludida sem perder o controlo e frustrada sem concluir que não é capaz.

E talvez a maior aprendizagem seja que não precisamos de retirar todas as dificuldades do caminho das crianças. Precisamos de garantir que, quando encontram uma dificuldade, não estão sozinhas e têm ferramentas para continuar.

Aprender a lidar com a frustração é uma competência que se desenvolve com tempo, prática e acompanhamento. A criança pode aprender estas estratégias em terapia, encontrando formas mais saudáveis de compreender e gerir as suas emoções.

E os pais também podem ter um papel importante neste processo, através do aconselhamento parental, aprendendo como responder e apoiar nos momentos mais difíceis. Se sentes que este apoio pode fazer a diferença na tua família, marca uma sessão para a criança ou para ti enquanto pai ou mãe e começa este caminho acompanhado.

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